sábado, 21 de fevereiro de 2009
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Associações de Pais ou para Pais
Nos meus artigos anteriores escrevi aqui sobre diferentes protagonistas da cena educativa: alunos, professores, pais e pais-professores. Aproveito agora este espaço para tecer algumas considerações sobre um outro actor social: as associações de pais (APs).
Em primeiro lugar gostaria de sublinhar que entendo as APs como um actor social de ?corpo? inteiro, logo com interesses específicos e uma correspondente lógica de actuação própria. Deste ponto de vista, pais e associações de pais constituem actores sociais distintos e torna-se tão pertinente analisar a interacção, por exemplo, entre uma determinada AP de uma escola e o respectivo corpo docente, como entre essa mesma AP e o grupo de pais dessa escola.
A acção de muitas APs tem vindo a ser mediatizada, sobretudo quando promovem acções que podem render alguma espectacularidade televisiva. Raramente, porém, têm sido objecto de uma investigação digna desse nome. Por outras palavras, raramente têm sido problematizadas. E, no entanto, várias questões podem ser equacionadas a seu propósito: o que são associações de pais? Por que existem? Para quem? Como desempenham o seu papel? Como são elas encaradas pelos outros actores sociais, nomeadamente os próprios pais, mas também os docentes e os discentes? E como encaram elas os outros actores? Que prioridades lhes conferem? Que formação têm os seus elementos? E os que com elas interagem? Estas são algumas das questões-bússola que poderiam despoletar um interessante programa de pesquisa. Na impossibilidade de encontrar respostas para elas neste espaço, aqui deixo algumas notas soltas.
Em primeiro lugar encaro as APs como organizações que podem desempenhar um importante papel cívico. Encaro-as numa perspectiva de potencial promoção da cidadania, de possível forma de participação dos cidadãos na coisa pública. Como um acto de exercício quotidiano de uma concepção não burocrática de democracia. Como uma forma de aprofundamento da democracia. Como uma via de articulação entre democracia representativa e democracia participativa. Como um meio de instituir uma relação não passiva e não autoritária entre o Estado e o cidadão. Como uma dimensão de actuação colectiva. Como enformando uma certa concepção de sociedade. Em suma, como um acto político.
Esta perspectiva e este leque de possibilidades não significa que eles se realizem. Sabemos que a realidade social é fértil em efeitos perversos. Considero que há, desde logo, uma confusão, de origem semântica. É que falar em associações de pais não significa que elas efectivamente desenvolvam actividades para os pais. Por outras palavras, não significa que os representem. Há uma diferença, que se pode revelar incomensurável, entre o ?de? e o ?para?. O que nos diz o termo ?associação de pais?? Apenas que estamos perante um grupo organizado de pais. Que pais? Pressupõe-se que os pais dos alunos daquela escola (ou agrupamento de escolas)(1). E os estatutos é normalmente para este tipo de definição de membro de AP que apontam. Daí a se pressupor que elas representam automaticamente o restante grupo de pais vai um passo que, não raras vezes, se revela ser de gigante.
Num estudo etnográfico a que já tenho feito referência(2) procurei analisar, entre outros aspectos, qual o papel desempenhado pelas associações de pais em duas das escolas onde conduzi a minha pesquisa (na terceira escola só no final do trabalho de campo é que se constituiu uma AP). Aí constatei que, num dos casos, a AP só desempenhava tarefas directamente para o corpo docente e a pedido deste, nunca representando os pais, mesmo aquando da emergência de problemas. Pelo contrário, no outro caso deparei-me com uma AP claramente autonomizada do corpo docente e que desenvolvia todo um conjunto de actividades para as crianças, para os pais e para as professoras, mas com uma prioridade de acordo com a ordenação aqui descrita. Estamos perante um daqueles casos em que não se pode tomar a nuvem por Juno. Espero poder desenvolver esta e outras ideias no próximo artigo.
Notas:
(1) Curiosamente os franceses usam a expressão completa: ?parents d?élèves?.
(2) Silva, Pedro (2003) Escola-Família, Uma Relação Armadilhada - Interculturalidade e Relações de Poder, Porto: Edições Afrontamento.
Pais Maus
Ontem, através do meu filho mais novo, veio parar-me ás mãos um testo distribuído às crianças do ATL que ele frequenta. Confesso que costumo ler os diversos papeis que me mandam das diversas escolas dos meus filhos, na diagonal, curiosamente, a este, li-o de fio a pavio.
Como não vinha assinado, não tenho maneira de pedir ao autor para o publicar, mas parece-me que o que importa a quem o escreveu é que chegue ao maior numero de pais possível.
Vale a pena lê-lo:
Deus abençoe os pais maus!
Um dia quando os meus filhos forem crescidos o suficiente para entenderem a lógica que motiva um pai, eu hei-de dizer-lhes:
- Amei-vos o suficiente para ter insistido que juntassem o vosso dinheiro e comprassem uma bicicleta, mesmo que eu tivesse possibilidade de a comprar.
- Amei-vos o suficiente para ter ficado em pé junto de vós, duas horas, enquanto limpavam o vosso quarto, trabalho que eu teria realizado em quinze minutos.
- Amei-vos o suficiente para vos obrigar a pagar a pastilha que tiraram da mercearia e dizer ao dono: eu roubei isto ontem e hoje queria pagar.
- Amei-vos o suficiente para ter ficado em silêncio, para vos deixar descobrir que o vosso amigo não era boa companhia.
- Amei-vos o suficiente par vos deixar assumir a responsabilidade das vossas acções, mesmo quando as penalizações eram tão duras que me partiam o coração.
- Amei-vos o suficiente para vos ter perguntado: onde vão, com quem vão e a que horas regressam a casa.
- Amei-vos o suficiente para vos deixar ver fúria, desapontamento e lágrimas nos meus olhos.
- Mas acima de tudo, eu amei-vos o suficiente para vos dizer NÂO, quando sabia que me iriam odiar por isso.
- Estou contente. Venci, porque no final vocês também venceram. E qualquer dia, quando os vossos filhos forem suficientemente crescidos para entenderem a lógica que motiva os pais, vocês irão dizer-lhes, quando eles vos perguntarem, se os vossos pais eram maus, que sim, eram os piores pais do mundo!
Porque:
- Enquanto os outros miúdos comiam doces ao pequeno almoço, nós tínhamos que comer cereais, tostas e ovos.
- Os outros miúdos bebiam pepsi ao almoço e comiam batatas fritas, nós tínhamos de comer sopa, prato e fruta. E, não vão acreditar! Os nossos pais obrigavam-nos a jantar à mesa o que era bem diferente dos outros pais.
- Os nossos pais insistiam em saber onde nós estávamos a todas as horas, era quase uma prisão. Tinham que saber quem eram os nossos amigos e o que fazíamos com eles.
- Insistiam que lhes disséssemos que íamos sair mesmo que demorássemos só uma hora, ou menos.
- Nós tínhamos vergonha de admitir mas eles violaram uma data de leis do trabalho infantil: nós tínhamos de fazer as camas, lavar a loiça, aprender a cozinhar, aspirar o chão, engomar a nossa roupa, ir despejar o lixo, e todo o tipo de trabalhos cruéis. Eu acho que eles nem dormiam a pensar em mais coisas para nos mandar fazer.
- Eles insistiam connosco para lhes dizermos a verdade, e apenas toda verdade, sempre a verdade.
- Na altura da nossa adolescência eles conseguiam ler os nossos pensamentos o que tornava a vida muito chata.
- Os nossos pais não deixavam os nossos amigos buzinarem para nós descermos, tinham que subir, bater á porta para que eles os conhecessem.
- Enquanto toda a gente podia sair com doze ou treze anos, nós tivemos que esperar pelos dezasseis.
- Por causa dos nossos pais, nós perdemos as experiências fundamentais da adolescência: nenhum de nós esteve envolvido em actos de vandalismo, em roubos, violações de propriedade, nem foi preso por nenhum crime.
- Foi tudo por causa deles.
- Agora já saímos de casa, somos adultos, honestos e educados, estamos a fazer o nosso melhor para sermos maus pais tal como os nossos pais o foram.
- Eu acho que este é um dos males do mundo de hoje: não há suficientes maus pais.